na páscoa e no natal era quando se fazia um fato novo para estrear. lembro-me particularmente do vestido aos quadrados castanhos e cinzentos com um folho no pregão. era já depois do jantar que se tiravam os alinhavos e se passava o vestido a ferro para que, na missa do galo ou na vigília pascal, se estreasse a fatiota. primeiro começava-se pelos moldes, desenhados com as réguas de madeira nas folhas retiradas da parte de dentro das sacas de papel das sêmeas. só depois se cortava o tecido meticulosamente, deixando o mínimo para as costuras - "pode ser que os punhos, a gola e o pregão se possam tirar do que sobra da largura". já a baínha era outra coisa; queria-se grande para que o vestido crescesse connosco. as pequenas almofadas de pano e cheias com areia eram colocadas por cima dos moldes, não fosse o tecido fugir e acontecer a desgraça de alguma coisa não bater certo. íria ser mesmo uma desgraça e nós, os mais novos, não quereríamos estar por perto. mas a verdade é que estaríamos, porque nos momentos da costura - o molde, o corte, as medições, os alinhavos, o coser - dificilmente tínhamos permissão para arredar pé - "tens de aprender porque um dia nunca se sabe. é preciso saber fazer de tudo". e tanto que nos custava ali ficar, de pé, a olhar tudo e a sentir que o perceber estava tão longe. no início, para além de ver, cabíam-nos as tarefas de tirar os alinhavos e as marcações. mais tarde, já chegávamos a ser nós a chulear, fazer as baínhas e até cozer na velha singer de pedal. os dias das costuras eram... peculiares. de todo nos deixavam felizes, mas ainda assim, posso dizê-lo sem hesitar, e porque estou a uma distância de segurança desses momentos, foram bons. e permitiram que pondere comprar um dia destes uma máquina de costura. talvez ainda me ajeitasse.
2 comentários:
O que eu ouvi daquelas frases feitas e verdadeiras como..."Um dia nunca se sabe... é preciso saber fazer de tudo!"
beijinhos
Gostei particularmente do "a uma distância de segurança desses momentos".
É com saudade - muita saudade, que recordamos tão "bons" momentos em que, apesar de mais próximos, nos sentíamos talvez mais distantes.
E é com um sentimento de extrema gratidão que agora, apesar de mais distantes, esses e outros bons momentos que se foram sucedendo, e não menos enriquecedores, nos têm mantido tão próximos!
- Está muito para além dos nossos méritos! Obrigado!
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