É dado adquirido e já muito debatido que a ciência e a tecnologia evoluem hoje a uma velocidade maior do que em qualquer outro momento da história da humanidade. Por consequência, também o modo de vida das civilizações que têm oportunidade de contactar com essa evolução, se transforma rapidamente, fazendo com que os interesses, e a própria forma de estruturação do pensamento das crianças e jovens de hoje, sejam tão diferentes dos nossos próprios interesses e formas de pensar quando éramos crianças. A este propósito, um outro aspeto que poderia ser desenvolvido é o da riqueza que advém desta pluralidade de pensamento das gerações que hoje interagem.
A geração que hoje frequenta a escola é, assim, a que, desde sempre, tem mais escolaridade e mais fácil acesso à informação. É a que melhor conhece os riscos da poluição, da energia nuclear, as consequências do esbanjamento de água potável e dos recursos naturais do planeta. É a geração com melhores condições para ser sensível ao problema da extinção das espécies e ao aquecimento global. Ora, tal seria muito animador, não fossem dois pequenos/grandes fatores. O primeiro, tem naturalmente a ver com uma questão temporal. Chegará esta geração do conhecimento a tempo, para conseguir evitar algumas das catástrofes ambientais anunciadas? O segundo ponto, quanto a mim não menos preocupante que o primeiro, prende-se exatamente com esta euforia moderna com a ciência e a tecnologia, e que se arrisca a não deixar espaço para o lado humano, necessário à sobrevivência da nossa espécie. Veja-se a reduzida importância dada atualmente a áreas como a história, a filosofia, a antropologia ou a sociologia. Hoje toda a sociedade sobrevaloriza a área técnica e científica, em detrimento da área social e humana. Mas a história ensina-nos que a evolução se dá por ciclos. Recorde-se que a ciência começou por se dedicar ao que estava longe - veja-se o caso da astronomia - e só muito mais tarde se debruçou sobre as pessoas, a sua história e a sua forma de vida. Talvez esta seja simplesmente a era da técnica. Resta-me ter esperança que a era da ética não se lhe atrase.
Não termino, sem aprofundar um pouco o importante papel da escola na transmissão do conhecimento já adquirido, proporcionando a cada geração a não necessidade de reinventar as roldanas ou o sistema decimal. Da escola, saímos com o conhecimento que as gerações anteriores nos deixaram como herança, permitindo-nos assim a oportunidade (ou o dever) de chegar mais longe. Da escola, saímos ainda com a riqueza da interacção com um sem número de pessoas que trazem o seu próprio conhecimento do mundo, o que nos permite olhar as coisas de uma forma mais limpa e mais ampla.
Sentimos muitas vezes que as crianças e jovens não valorizam a escola. Talvez seja compreensível. Na verdade, quantas vezes nos apercebemos do valor das coisas apenas quando nos afastamos e nos apercebemos do que ganhámos com elas. A nós, os que estamos na escola todos os dias, cabe-nos mostrar-lhe o sentido, vivendo-a com gosto, e fazendo entornar para as novas gerações este nosso entusiasmo pelo conhecimento e pelas pessoas. E fazendo com que, quando saírem da escola, os jovens lhe reconheçam o valor, e sintam que são mais ricos porque sabem e sentem mais e melhor.
1 comentários:
Acho, infelizmente, que a era da Ética vai tardar muito...!
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